
Sou um paulistano nascido no Brás no começo dos anos 60. Naquela época o Brás era um bairro tipicamente italiano, mas hoje a sua população já está bem diversificada. Assim como milhões de outros que nasceram na cidade de São Paulo, eu também tenho em minha ascendência várias etnias, pois, sou descendente de espanhóis por parte de pai e de luso-brasileiros por parte de mãe. Muitos que escolheram a cidade de São Paulo para viver ou para trabalhar, deixaram a sua terra natal, seus costumes, seus familiares, seus amigos, e, empenhados em alcançar o seu objetivo, lutaram por uma causa na grande cidade.
O tempo passou, as circunstâncias mudaram, a situação se transformou, e acabamos passando, mudando e nos transformando junto com a cidade. Os costumes, o modo de falar, os gostos, tudo passa a ser influenciado pelo nosso novo habitat, pela nova realidade.
No poema “A saga do Galego”, usei como matriz a história da minha família que séculos atrás deixou sua linda terra ao norte da Espanha, Galiza, e se lançou de cabeça, Ibéria abaixo e muito tempo depois, à América do Sul, e por último, à cidade de São Paulo.
Neste poema procurei traduzir em palavras um pouco do sentimento daqueles que deixaram a sua terra natal, e ao fazerem isso tiveram que lutar contra um mundo agora desconhecido, estranho, novo. Cada grupo étnico com as suas sagas com as suas lutas, com seus desafios, e no final, depois de algumas gerações, terão que pagar o preço pelo distanciamento de sua terra, ou seja, a descaracterização e a homogeneidade. O poema bem poderia se intitular, “A saga do mineiro”, ou “A saga do baiano”, ou “A saga do italiano”, ou “A saga do árabe”, ou “A saga do judeu”, ou “A saga do oriental”, enfim, a saga de todos aqueles que, distantes de sua terra de origem e não tendo como retornar, fincaram cada vez mais suas raízes nesta terra abençoada que a todos acolhe. Será esta mais uma parada em seu longo caminho iniciado há muito? Ou será aquilo que tanto buscavam?
A saga do galego
(Autor: Carlos David Neyra – 2008)
Deixou a sua terra
deixou o seu mundo
e foi lutar contra os mouros.
Deixou as verdes montanhas
deixou os rios cristalinos
e foi lutar contra os mouros.
Deixou o seu povo
deixou a sua gente
e foi lutar contra os mouros.
Deixou o alimento farto
deixou o bom vinho
e foi lutar contra os mouros.
Perdeu pais, perdeu filhos
perdeu irmãos e perdeu amigos,
pois, estava lutando contra os mouros.
Perdeu a sua roupa, perdeu a sua gaita
perdeu os seus hábitos e perdeu a sua língua,
pois, estava lutando contra os mouros.
Fez órfãos, fez viúvas,
fez dor e fez cair lágrimas,
pois, estava lutando contra os mouros.
Aonde estás hoje, galego,
longe da tua terra,
longe do teu mundo,
longe das verdes montanhas,
longe dos rios cristalinos,
longe do teu povo,
longe da tua gente,
longe do alimento farto,
longe do bom vinho,
sem a tua roupa,
sem a tua gaita,
sem os teus hábitos,
sem a tua língua,
pois, já não tens mais mouros com quem lutar?
Crédito da foto: http://bichotoblog.com/2009/06/29/camino-santiago-portomarin-palas-de-rei/

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