
Há muito tempo ganhei de meu pai um velho caderno de poesias que fora escrito por ele e por seus dois irmãos, Benjamin e Lenine. Deixe-me contar-lhes algo a respeito desse caderno e de sua história.
Atualmente os jovens recorrem à internet para baixar as letras das suas músicas preferidas. Na maioria das vezes estes jovens as mantêm em aparelhos eletrônicos para pronta audição. Em outros casos, eles as imprimem e as colocam numa pasta plástica, para poderem visualizá-las melhor.
Na década de 40 e 50 a realidade era outra. Não existia televisão, internet, e muito menos esta enorme gama de aparelhos eletrônicos voltados para música, tão comuns hoje em dia. Qual era a solução que os jovens da época encontravam para ter as letras de suas músicas preferidas? A solução encontrada era por se conseguir a letra da música e transcrevê-las num caderno. Aqueles cadernos eram a sensação do momento, geralmente de 100 folhas, todos escritos à mão por um, dois, três ou mais amigos. Era o MP3 ou MP10 da época. O caderno acima referido que ganhei de meu pai por volta do ano de 1980, era um desses. Uma verdadeira preciosidade. Uma relíquia de família, pois contém as letras de meu pai e de meus dois tios paternos. Nesse caderno, grande parte das letras de música era composta de boleros e tangos, e um cantor bastante presente no caderno era Carlos Gardel, o cantor que cantava e encantava multidões mundo afora.
Nesses cadernos eram escritas não somente as letras das músicas, mas também composições pessoais. Uma dessas composições intitula-se “Distância do amor materno”, de autoria de meu pai, o Sr. Carlos Neyra Filho, quando tinha apenas 23 anos de idade. Este poema foi escrito por ele aqui na cidade de São Paulo em 20 de maio de 1951, e reflete o sentimento de saudades que os imigrantes sentem pelos seus entes queridos que foram deixados numa terra distante. Meu pai vivia aqui em São Paulo e havia deixado na cidade de Penápolis, interior do estado, os seus pais, no caso, meus avós, o Sr. Carlos Neyra Moreno e a Srª Maria Josefa Miras Sánchez, espanhóis. Certa noite, após um sonho, levantou-se e escreveu o poema que transcrevo a seguir:
“Distância do amor materno”
(Autoria de Carlos Neyra Filho)
I
Altas horas da noite
pensando em ti fiquei.
Com muitas saudades no coração
dormi e logo sonhei.
II
Sonhei com teu vulto sagrado
Evoquei todo meu espírito.
Nesse vulto que sempre por mim
sempre, sempre será amado.
III
Sentada em sonho comigo estava
num lindo jardim todo florido.
Fiquei alegre em estar perto
desse vulto que é tão querido,
minha mãe.
IV
Quando acordei estava longe,
muitos quilômetros de distância.
Minutos fiquei muito triste,
mas logo me veio a esperança.
V
Forte, sadio bem sei que estou,
tu também mãe querida estás
muito breve quero ir
para sua testa idosa eu beijar.
VI
Sonhei mesmo de verdade
esse sonho tão feliz.
Por esse sonho tão bonito,
levantei-me e estes versos escrevi.
VII
Sonhei contigo minha mãe querida.
Emocionado pelo teu amor fiquei,
e para não esquecer o sonho lindo,
estes versos nesta folha eu gravei.
VIII
Recordo-me do papai querido,
da minha mamãe tão amada.
Recordo-me dos meus irmãos
e dessa casinha idolatrada.
C.N.F.
20-05-1951
Fim
Hoje, meu pai continua sendo um imigrante,mas desta vez... numa terra mais distante.

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